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"Chofer de caminha"
Rodolpho A. Partiho Heróis esquecidos, pioneiros solitários e solidários. Bandeirante motorizado o chofer de caminhão abriu nas trilhas marcadas pelos pneus de seu “possante” abrindo caminho ao progresso em imensidões no interior brasileiro, consolidando a desejada “Marcha para o Oeste”. Nomes e feitos, lendas que se fez em histórias misturadas e sedimentadas ma lama dos brejais ou na poeira dos estirões em campos infinitos, permanecerão ainda nas memórias e lembranças dos que viveram ou presenciaram o desenrolar de sonhos, se alegraram ou se lamentaram nas vitórias ou nas derrotas dos ideais sonhados. O chofer e sua máquina aceitando e vencendo o desafio de além, sempre mais além, rumo a horizontes não sabidos. Herói anônimo, sem medalhas ou honrarias. Era uma tarde-noite de um mês de agosto de 1918 quando roncos e estampidos nunca d’antes ouvidos, fizeram com que a pequena cidade se agitasse ante chegada da tão falada e nunca vista “machina” escandalosa de meter medo, trazendo em seu bojo três pioneiros idealistas que naquele instante consolidavam antigo sonho de ter terra do Ribeirão Abóboras em sintonia direta com a “Cidade Jardim”, outrora São Pedro do Uberabinha no Sertão da Farinha Podre. Epopéia que inspiraria, anos depois, ao mais ilustrado escritor de Jataí, por justiça, membro da Academia Goiana de Letras: Basiléu Toledo França, escrever e/ou descrever em livro-documento, “Cavalo de Rodas,” toda epopéia vivida por Sidney Pereira e Ronan Rodrigues Borges, adentrando pela primeira vez o Sul-Sudoeste goiano em um Ford modelo “double phaeton” dirigido por José Sabino, (José do Cachimbo), marco inicial a efêmera, ainda assim, profícua existência da “Cia. Auto Viação Sul Goiana”.
Todavia a historia sobre a entrada do primeiro caminhão em Rio Verde, estaria no esquecimento, não fora a iniciativa de Nelson Cupertino, professor de física de quem fomos aluno no 2º Ano do Curso Científico em Uberlândia, ao se decidir escrever e publicar em livro, (1942), “M’Boitatá” onde relatando lenda folclórica sobre a “aparição que corria atrás das pessoas” a que os índios assim a batizaram e que nada mais seria do que cientificamente se denomina: fogo-fátuo. M’Boitatá em tradução livre significa cobra-de-fôgo, (do tupi: Mboi = cobra e tatá = fogo). Assim, e também, chamada cobra grande, mboiuna ou mboiguassu.
Na história em que encontramos sob mesmo tema a história e a lenda, o professor Cupertino, relata trágica história sobre um garoto paranaíbense e seu imenso desejo de deixar o grande rio e partir para algum lugar onde pudesse aprender “choferar” caminhão. Vê seu sonho realizado, nele, vivendo venturas e desventuras depois de ter se encontrado com a grande serpente de fogo: M’Boitatá. Inserido em suas peripécias a parte ral de sua vida com destaque para a grande viagem que fez até Rio Verde, transportando mercadorias para a loja de Gumercindo Ferreira, comerciante maior que lhe garantiria frete de retorno á Uberlândia. No livro, nenhyuma citação sobre seu verdadeiro nome. Apenas, seu apelido: “Caboclinho” e o nome com que batizou seu caminhão: que não poderia mesmo ser um outro, senão, M’Boitatá.
Tal como quando da chegada do primeiro automóvel, Rio Verde se encheu júbilo vendo agora atravessar o Córrego do sapo para galgar a subida da atual rua 12 de Outubro, o primeiro caminhão a anunciar progresso trazendo em sua cacunda, quatro vezes mais carga que qualquer carro de bois e, com muito mais rapidez e segurança. Coisa do outro mundo! Entusiasmado com tal feito, Gumercindo Alves Ferreira redigiu correspondência a quem chama “Amigo Carmo” seu fornecedor em Uberlândia. Longa e entusiástica carta, que pode ser lida no citado livro, onde podemos ler trechos assim: “Recebi as encomendas... Eu não esperava por elas tão cedo: pensava que tivessem que vir de Santa Rita para cá, em carro de bois, com vinha sendo feito” - (Nota: Santa Rita do Paranaíba: Itumbiara. Itu: cachoeira. M’biara: caminho. Temos então no topônimo Itumbiara o significado: o caminho da cachoeira. No caso, a Cachoeira Dourada. Anota, mais adiante: “A cidade ficou um alvoroço, quando ouviu o ronco do motor: foi um corre-corre geral” - “Rio Verde possui grandes reservas econômicas, que esperam apenas pelo toque da varinha mágica da fada Civilização. É o que acaba de acontecer.”- “O “Chauffer, tem sido aclamado aqui, como um herói” - “Rio Verde ficou devendo a este intrépido e humilde herói”. No registro de Gumercindo Ferreira, o entusiasmo e festa que se fez quando da chagada do primeiro caminhão à Rio Verde.
Muitos anos se passaram. As marcas pioneiras: Saurer, de fabricação holandesa, Overlands, Mullags, cumpriram seu papel desbravador antes de serem substituídas por outras mais funcionais. Nascia a classe dos choferes de caminhões. Em pouco tempo, com status de quem “conhecia o mundo” Paparicado em restaurantes, postos de gasolina onde eram recebidos com todas as atenções. Em suas cidades, assumiam o papel de leva-e-traz das novidades, cartinhas e encomendas. Nos destinos a diversão maior acontecia nos bordéis em que se faziam “coronéis da noite” paparicado entre solícitas mariposas da noite. Na cabine não poderia faltar o rádio “Ford 6 faixas”, cochonilho de qualidade, acessórios de gosto duvidoso e tudo mais que representasse “conforto” ou novidade. Sobre o parabria, o tradicional: “Vamos com Deus”. No pára-choque, a concorrência das frases em filosofia caminhoneira. E “causos” de veracidade duvidosa, que as mesmas “tinham” gerado. Sucesso “caipira”, “Mula Manca” foi muito ouvida. Nela havia o refrão: “Que me importa se a mula é manca, o que eu quero é rosetar” Verbo que também significa, em seu termo, diríamos, mais chulo, divertir-se com pessoa do sexo oposto. Conta-se que certo motorista mandou escrever no pára-choque de seu caminhão: “O que eu quero, é rosetar.” Em Itumbiara o delegado não gosta do que leu. Que o motorista faça apagar tamanha imoralidade. Força da lei não se discute. Quem tem juízo, acata. Diz o ditado. E foi o que o chofer fez. Apagou e voltou à Uberlândia. Dias depois, ei-lo de volta a Itumbiara fazendo rir todos que sabiam desta “passagem” acontecida. No pára-choque, nova frase: “Continuo querendo...” E há a história sobre o “séo” Moisés, lá de jataí. Dono de um GMC 450, verde, que até parecia nunca ter sido lavado. Certa feita, perto de Avatinguara, não muito distante de Itumbiara, seu GMC teve o cubo da roda danificado. No vilarejo havia rede telefônica que o ligava a Uberlândia. Arcaico, ruim que só. Moisés, gago e fanhoso, liga para Irmãos Garcia para pedri que lhe enviassem um novo cubo de roda. Uma jovem o atende e ele tenta se comunicar, dizendo: “Óia. Eu quebrei o cu-cu-cu-bo. Ocêis me manda um novo”. E gaguejava fanhoso, repetindo seu pedido. A atendente chama alguém: “- Tem gente falando besteira pra mim aqui no telefone, atenda, aí!” Finalmente o Moisés conseguiu comprar a peça que necessitava. Mas qualquer colega de estrada que gaguejasse “-um cu-cu-cubôoo, “taba correndo risco de agressão. No mínimo.
Estas e outras historietas ajudavam passar as horas nos atoleiros ou nos quartos coletivos, enquanto o sono e a canseira não chegavam...
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