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O triunfo da motosserra
Júlio Capparelli "Todo jardim começa com um sonho de amor. Antes que cada árvore seja plantada, antes que cada lago seja construído, eles têm que existir dentro da alma. Quem não tem jardim por dentro, não cria jardim por fora, e nem passeia por ele". (Rubens Alves) Sem querer, me sinto movido pela revolta quando assisto ao corte irresponsável de árvores, como aconteceu ali no setor Morada do Sol. Não consegui, até hoje, traduzir essa revolta em palavras. Faltou inspiração, talvez. Quando me falta inspiração, recorro ao mestre Rubem Alves e não me envergonho por isso. Aliás, sinto orgulho de tê-lo descoberto, quando muitos nem ouviram dele falar. Muitas e muitas vezes recorri a ele para traduzir em palavras, sentimentos , tormentos , aborrecimentos e alegrias também.
Nos últimos dias procurei uma maneira de transformar minha indignação em palavras e, por mais que haja tentado, não consegui. Por isso, fui ali aos escritos do mestre Rubem Alves buscar ajuda. Não tive outra saída senão plagiá-lo, me apossar dos seus pensamentos já transformados em palavras, para melhor exibir aquilo que está aqui atravessado na minha garganta.
Leio mais um pedacinho do seu escrito: “o ato de plantar uma árvore é um anúncio de esperança. Especialmente se for uma árvore de crescimento lento. E isso porque, sendo lento o seu crescimento, eu a plantarei sabendo que nem vou comer dos seus frutos e nem vou me assentar à sua sombra.... Eu a plantarei pensando naqueles que comerão dos seus frutos e se assentarão à sua sombra. E isso bastará para me trazer felicidade!”
Leio também o que ele disse, com muita propriedade, sobre o arquiteto Oscar Niemayer, que se notabilizou pelo uso do concreto armado em seus projetos geralmente encomendados por algum megalômano de plantão. Projetos onde não se vêem janelas, nem paisagens, nem árvores. Projetos frios e ocos que os detentores do poder tanto gostam, talvez pelo altíssimo custo de sua implantação. Vejo Rubem Alves se emocionar ao falar de uma árvore que nasce ou de uma que morre. Deve ser o amor que ele cultiva pela vida.
Deixo pra você, leitor, um outro fragmento de Rubem Alves, onde ele diz que “O prazer em cortar árvores, me parece, está ligado à volúpia do poder. Quem corta, tortura ou mata experimenta o prazer de exercer poder sobre o mais fraco. Mas acho que o prazer em cortar árvores está ligado a uma coisa mais sinistra. Suspeito que estejamos vivendo um momento de metamorfose da nossa condição humana. Até agora, temos sido habitantes do mundo da vida. Nosso habitat é constituído por florestas, animais, rios e mares. Somos seres biológicos, corpos. Mas agora estamos mudando de casa. Estamos trocando nossa casa biológica por uma outra casa eletrônica.”
Leio ali a noticia que o nosso Lázaro José de Almeida é o presidente do Conselho de Meio Ambiente, além, claro, de continuar como superintendente de Meio Ambiente da administração de Juraci Martins, a quem eu suplico, por oportuno, que não permita o triunfo da motosserra. Nós não precisamos de mais indignação para perceber que ela, sim, é o carrasco daquilo que nos resta da vida...
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